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Projeto Palavras Cruzadas:

"Já é vender a alma não saber contentá-la." Albert Camus - O Mito de Sísifo.

O projeto 'Palavras Cruzadas' promove encontros mensais (segundo sábado de cada mês) em que são lidos e discutidos trechos de obras importantes da literatura e filosofia surgidas à partir do século XX.

No encontro do dia 13/07 o livro utilizado será 'O Mito de Sísifo' de Albert Camus.

O evento começa às 15h30min.

A coordenação é de Vanessa Molnar, historiadora (USP) e escritora e Fábio Donaire, estudante do Bacharelado em Ciências e Humanidades (UFABC). Estamos localizados na Rua Professor José Franco, 166 – Bangu (a 10min da UFABC de Santo André, na rua do restaurante Frangasso).

A entrada é franca.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Um bom dia para se refrescar no lago central

Mais um conto de um autor convidado trata-se do meu parceiro Fernando Fesant dono do blog http://orudemagnetismo.blogspot.com/ ,onde ele publica outros contos e crônicas, a especialidade dele é o mistério, abaixo está um dos contos que eu mais gostei.




A nave pousou em Marte. Havia um dedinho do Brasil na obra. Um dedão do pé, eu diria. Oito anos depois desde o primeiro astronauta no espaço, foram gastos quase 70 milhões da moeda nacional para fazer a segunda viajar. Dinheiro que poderia ter sido investido, por exemplo, no combate a epidemia de dengue que atingiu metade do Brasil entre os anos de 2008 e 2011. Cerca de 1,5 milhões de pessoas morreram naquela época e o governo gastando dinheiro com a viagem mais cara do mundo.


Um resfriado do titular do vôo fez com que o astronauta brasileiro tivesse o privilégio de ser o primeiro latino e o segundo homem a por os pés em solo marciano. Jesus era um acontecimento incrível para a televisão. Patrocinadores, artistas, políticos, muita gente ganhou dinheiro em cima do fato. As pessoas na terra estavam tão excitadas com aquilo que desde a apresentação dos Beatles nos Estados Unidos em 1964, não se via uma redução de crime tão grande lá.

No Brasil não havia sido diferente. Foi decretado feriado nacional. As pessoas grudaram os olhos na TV para ver o astronauta brasileiro. A criminalidade foi reduzida a casos isolados. A porta do módulo se abriu. A expectativa era grande, o primeiro astronauta a sair foi o coronel americano Robert Smith como era de se esperar. Ele parecia procurar alguma coisa no horizonte. Esperou a escada se abrir e então ele começou a descer. Uma câmera instalada na altura do capacete levava as imagens para Terra. Passo a passo a expectativa era maior. Eu estava no bar. Sempre ele. Curtia uma cerveja a droga legal mais desmoralizadora da face da Terra, de repente de Marte também. Alguém havia apostado qual dos pés tocaria primeiro o solo. Apostei no esquerdo. Acabei perdendo. Alguns loucos ensaiaram uns gritinhos tolos.

- É o segundo maior passo da Humanidade – disse o astronauta americano tentando parafrasear outro colega seu.

Segundos depois surgiu o brasileiro. O coronel Alexandre Karl da Força Aérea. Houve um grande alvoroço no bar. Os caras começaram a gritar, bater palmas, mexer nas cadeiras e dar socos nas mesas, não nessa ordem exatamente. Tomei outro gole da cerveja. Estava quente. Houve mais uma aposta dos pés da qual eu não quis apostar.

O brasileiro começou a descer e a cada passo que ele dava o pessoal fazia uma espécie de contagem regressiva. A imagem tremia um pouco dando a medida de seu nervosismo. Naquele mesmo instante morriam mais de trezentas mil pessoas de fome no mundo inteiro e agente fazendo festa por uma viagem que os cofres públicos pagaram milhões. Nós éramos os espertos. De pé em pé o brasileiro foi descendo os degraus e quando botou os pés no chão a festa foi completa.



Andar em Marte não era como andar na Lua. Não tinha aquele papo de pulinhos, os astronautas caminhavam como nós aqui na Terra. Tinha um lance de gravidade que eu tinha lido em alguma daquelas revistas semanais falando das roupas deles que eram feitas especialmente para a atmosfera de marte. Funcionavam bem, os caras pareciam estar andando na Avenida Paulista.

Robert Smith fincou no solo de Marte a bandeira das Nações Unidas, depois a dos Estados Unidos e em fim a do Brasil. Estava feito. Depois montou uma câmera num tripé para que ela pudesse captar de um outro ângulo o passeio dos astronautas.

A missão em Marte era simples: iriam resgatar a sonda Secchi que havia sido lançada onze meses antes e tentar recuperar as imagens que ela havia registrado da superfície do planeta próximo à região de Elysium. Descobriu-se água em forma líquida ali. Seria feita uma coleta do material que depois seria levado para o módulo e transportado para a nave Enterprise II na órbita do planeta.

Depois que a câmera foi ligada, as imagens chegaram a Terra. Ela deu um giro de 180º graus e registrando o imenso nada; depois ela girou 60º graus e capitou as imagens dos dois astronautas indo em direção ao grande lago que havia sido descoberto.

A possibilidade de encontrar vida em Marte aumentava a cada passo que era dado pelos dois astronautas. Era imprescindível, no entanto, encontrar a Sonda Secchi primeiro. Os cálculos precisavam que ela estaria a pelo menos uns dois quilômetros de onde o módulo havia pousado com uma chance de erro de dez por cento. Caminharam por uns dez ou vinte minutos para descobrirem que os cálculos estavam bem errados.

O astronauta brasileiro foi quem viu primeiro o objeto. Partes dele próximo às margens do lago.

- Ali. – disse ele num inglês impecável.

Ambos se dirigiram em direção dos destroços do objeto. Havia parte dele por todos os lados.

- Está destruída. Não vamos conseguir recuperar absolutamente nada. – disse Smith.

- O que será que aconteceu? – perguntou o brasileiro.

- Não sei. Mas ela não explodiu. Com certeza

O brasileiro olhou em volta. A imagem que ele via era a mesma que víamos na Terra: nada. Um imenso nada deprimente de rocha avermelhada. A imagem cortou para a câmera no tripé. Ela mostrava a imagem dos dois astronautas. O brasileiro um pouco mais afastado da margem; o americano estranhamente bem mais próximo do lago meio encurvado. Saquei logo de cara que ele havia visto alguma coisa na água. O gênio que manipulava as imagens da câmera não. Torci em vão que a imagem fosse cortada para a câmera do capacete do americano. O brasileiro se afastou mais do americano e se abaixou. A imagem foi cortada para o seu capacete. Deduzi que o nosso governo pagou um pouco mais para ter muitas imagens capitadas do nosso astronauta enquanto a cena quente estava acontecendo do outro lado. Idiotas. Não entendiam nada de cinema?

O brasileiro segurava mais pedaços da sonda que ele havia encontrado . Ótimo, milhões gastos para ficarmos assistindo metal retorcido na televisão. De repente o brasileiro olhou para trás e não viu o americano. Viu sim, uma movimentação na água. O americano estava se afogando e a galera do bar estava num alvoroço danado.

As imagens foram cortadas para a câmera do tripé. Tentáculos surgiram e deixaram o americano suspenso no ar como um boneco. Os braços e pernas balançavam como pedaços de borracha. Desesperado, o astronauta brasileiro parecia não saber o que fazer. Pegou um pedaço de rocha marciano, se aproximou da margem e jogou na coisa na tentativa desesperada de tentar fazê-la soltar Smith. Não surtiu efeito. Smith continuava balançando no espaço para cima e para baixo. Ele jogou outro pedaço de rocha e um tentáculo prendeu sua perna esquerda e começou a arrastá-lo em direção ao lago. O Cel. Alexandre conseguiu se agarrar a uma rocha, mas a coisa era forte demais para ele. Os dois astronautas ficaram suspensos no ar por um tempo e depois desapareceram dentro do lago puxados pela criatura.

Houve um grande silêncio no bar. Tomei um gole da cerveja quente, paguei a bebida e saí me dirigindo para o norte da cidade. Estava um calor dos diabos. Parei num cruzamento. O bonequinho estava vermelho e as ruas vazias. Atravessei o sinal vermelho. Do outro lado da calçada eu parei e olhei para o céu. Havia algumas nuvens e pássaros indo em direção ao estuário. Estava um bom dia para se refrescar no lago central. Tomei a direção sul e fui para lá.

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