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Projeto Palavras Cruzadas:

"Já é vender a alma não saber contentá-la." Albert Camus - O Mito de Sísifo.

O projeto 'Palavras Cruzadas' promove encontros mensais (segundo sábado de cada mês) em que são lidos e discutidos trechos de obras importantes da literatura e filosofia surgidas à partir do século XX.

No encontro do dia 13/07 o livro utilizado será 'O Mito de Sísifo' de Albert Camus.

O evento começa às 15h30min.

A coordenação é de Vanessa Molnar, historiadora (USP) e escritora e Fábio Donaire, estudante do Bacharelado em Ciências e Humanidades (UFABC). Estamos localizados na Rua Professor José Franco, 166 – Bangu (a 10min da UFABC de Santo André, na rua do restaurante Frangasso).

A entrada é franca.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Haiti

Conforme eu disse ontem, aqui vai o conto que criei encima do mote sugerido, o interessante que acabou virando um drama, coisa que escrevo pouco.



Desde 2004 o Haiti havia sofrido um golpe de estado, então a OEA (Organização dos Estados Americanos); resolveu intervir; e para surpresa de muitos, o Brasil, iria liderar esta intervenção.

Fabiano ingressou no exército no segundo semestre de 2003, um típico cidadão de classe média, branco e forte; nem imaginava em participar de algum exercício real, o objetivo era se tornar general e aposentar sem grandes problemas, mas naquele momento estava embarcando no porto do Rio de Janeiro, numa missão de “estabilização” do Haiti, uma resolução da ONU.

Após uma semana finalmente chegou ao Haiti, de belas praias, mas de um povo extremamente miserável, os guetos lembravam as favelas cariocas e paulistanas, no meio da viagem, Fabiano, fez amizade com Samuel, um afrodescedente, que não teve muita opção na escolha da profissão, o exercito foi o mais viável.

O serviço no Haiti era de dois anos, com um mês de férias, depois o soldado poderia voltar para o Brasil e Fabiano já estava terminando seu serviço junto com o seu amigo Samuel e no meio do ano de 2006, escreveu uma carta para a mãe, seu pai já havia falecido uns anos antes:

Querida Mamãe!

Enfim estarei retornando para o Brasil, ainda neste fim de mês, a saudade é muito grande, porém tenho que lhe pedir um gesto de humanidade, um pouco incomum.

Lembra-se do meu amigo Samuel, aquele que passou a férias junto comigo ai no Brasil?

Ele sofreu uma emboscada num dos guetos de Porto Príncipe, bem no ultimo mês de serviço, ele perdeu as duas pernas.

Samuel é como um irmão para mim, ele me tirou de várias encrencas, e não tem família e não tem ninguém, gostaria de pedir que deixasse ele morar conosco, como se fosse um parente nosso.

Dona Rute, ficou preocupada, como poderia atender ao pedido do filho? Ainda mais sabendo que ele estava a dois anos num estresse de guerra.

Ficou sem dormir nos quinze dias seguintes a chegada deles, pensava em dissuadir o filho daquela idéia, era loucura, como cuidar de um desconhecido sem pernas?

Ao mesmo tempo pensava que aquilo poderia ter acontecido ao seu filho, num ultimo lampejo de dúvidas e compaixão, resolveu atender ao pedido do filho, quem sabe ele não desistiria ou o próprio Samuel não se sinta bem e resolva por si só ir embora?

Ela viu seu filho descendo do navio, empurrando uma cadeira de rodas, onde Samuel estava, ambos se abraçaram, choraram e mataram a saudade, porém Samuel ficou passivo, seu olhar admirava o nada, ainda não tinha assimilado a perda das pernas, pensou que o exercito poderia lhe arrumar duas próteses, mas ninguém ligava para isto, ainda mais para um afrodescente.

Depois da chegada, havia se passado trinta dias, Dona Rute e Samuel se deram muito bem, ao contrario da expectativa de ambos, eles se tratavam como mãe e filho, ela o levava para as sessões de fisioterapia e com este empenho de Dona Rute; Samuel já conseguia fazer várias coisas, sozinho.

Devido à forte fisioterapia, seus braços se fortaleceram, conseguia se locomover sozinho na cadeira de rodas; começou a participar de uma oficina de dança, onde ele somente com os braços fazia os passos de hip-hop.

A família estava feliz, e num sábado à noite, Fabiano diz: “Vou buscar umas pizzas!”, e saí para ali, perto de casa, desceu do carro e foi abordado por um pivete que sacou uma arma e anunciou o assalto, pedindo-lhe a carteira.

Fabiano, sem reagir, lhe entregou a carteira, o pivete vasculhou-a em busca de dinheiro e encontrou o documento que identificava Fabiano, como soldado do exercito, o pivete, sob efeito de narcóticos, se assustou, e disparou à arma, o tiro é certeiro no coração de Fabiano que cai morto, sem chances de reagir e o pivete some pelas ruas.

Dona Rute entra em desespero, porém não há mais nada a se fazer, a não ser enterrar o corpo, onde todas as honrarias militares foram dadas.

É a ironia da vida, um sujeito passa dois anos num país em guerra, consegue sair ileso e morre na esquina de casa, num país notoriamente pacifico, este foi o pensamento de Samuel, não há diferenças entre Haiti e Brasil.

Samuel se aproximou de Dona Rute para consolá-la e ela em voz de choro lhe pergunta:

-E agora o que eu farei da vida?

-Vamos permanecer juntos... – Respondeu Samuel após um breve silencio. – Eu não sou teu filho de sangue, mas neste um mês, nós não olhamos nada, superamos preconceitos, orgulhos e desconfianças e criamos um amor de filho e mãe, vou cuidar de você.

- Mas filho...

-Não se preocupe, nós não estamos sozinhos!

E eles se abraçaram e choraram para aplacar a dor da perda, e assim eles viveram felizes, apesar de todas as marcas que a vida havia causado, mas o amor é o remédio para estas marcas, a guerra destrói por motivos irracionais, o amor constrói, também, por motivos irracionais, porém os motivos são totalmente antagônicos.

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